Finalmente, revisitei Frankenstein. Li quando era adolescente e me surpreendeu muito.
Esperava que fosse ser uma porcaria (baseado na imagem que eu tinha de filmes de terror B), e me deparei com algo muito diferente. A aventura aos confins do mundo (narrada por cartas!) prendeu minha imaginação e a criatura, tão profunda quanto seu criador, distava muito dos monstros dos filmes das noites de fim de semana.
O gatilho para essa redescoberta? O filme de Del Toro. Queria estar com o original fresco para ver esse filme tão aguardado. O filme foi uma terrível decepção. Quanto ao livro, agora, como um leitor mais maduro, descobri muitas coisas que me passaram batido então.
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Frankenstein é uma obra interessante, terror gótico, mas também ficção científica precursora e um romance filosófico. Os limites do globo, da ciência e da moralidade humana são explorados através de homens intrépidos — o navegador e o cientista. O monstro não é apenas maldade. Aliás, longe disso. Nasce bom. A rejeição, de seu criador e da humanidade, o mergulha num selvagem sofrimento, do qual sairá transformado. O quanto das ações terríveis dessa criatura trágica deve ser imputado a ela? O quanto deve ser imputado a seu criador — que nega suas responsabilidades como genitor?
A jornada de descobrimento e autodescobrimento da criatura tem grandes pitadas de ensaio filosófico e sociológico. A passagem da criatura descobrindo a humanidade ao observar uma família pelas fendas de um rancho, o amor que devota a eles, e a frustração que se sucede é um dos pontos altos do livro.
A construção das relações amorosas na trama (entre pais e filhos, mas, principalmente entre homem e mulher), embora característico do romance sentimental da época, é tão brega que chega a ser anticlimática. Felizmente, a dimensão psicológica da obra não é dedicada aos relacionamentos amorosos, mas para a evolução da psique atordoada de Victor. Victor passa por uma verdadeira transformação. O cientista luta para se manter psicologicamente são enquanto vive sob o horror solitário que a criatura renegada, fruto de seu secreto trabalho, impunha a ele ao arrancar de sua vida as pessoas que mais ama.
Algo que me prendeu muito foi a inédita aventura para os fins boreais do globo. Fiquei tão interessado que deu vontade de ler mais sobre a verdadeira conquista dos polos (que só aconteceria quase cem anos depois). A exploração rumo às desoladas e congeladas paisagens boreais tem tintas fantásticas e perigosas.
Finalmente, cabe lembrar de mais um elemento delicioso desse livro com 2 séculos de existência. O romance é fruto de sua época e meio social e quem estiver disposto a estudá-lo sob essa perspectiva, terá um empreendimento interessantíssimo pela frente. As fronteiras da ciência ainda eram fronteiras também geográficas (os polos terrestres). O maravilhamento da nascente ciência ainda permitia a narrativa com temas quase que exclusivamente esotéricos. As questões de classe, gênero e valores morais de princípios do século XIX gritam nas páginas. Por fim, as questões políticas estão presentes, com a península itálica ainda sendo aquele laboratório caleidoscópio de experimentos políticos. Tudo isso ainda dá vazão a reflexões quase sociológicas e filosóficas da criatura, que quase nos permitem vislumbrar um estudo ensaístico de ciências humanas, mas com mentalidade de princípios do século XIX (momento que, não custa lembrar, está mais próximo dos jacobinos e do Ancien Régime que da Primavera dos Povos e os primeiros movimentos socialistas).